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TEXTOS

Poderíamos partir de Espinosa...

Autor: Pál Pelbart, Peter

Año de publicación: 2008

Fecha de incorporación a la web: 24/02/2009

Referencia bibliográfica:


Próximo Ato: Questões da Teatralidade Contemporânea
, coord. Fátima Saadi, Silvana Garcia, São Paulo, Itaú Cultural, 2008, pp. 32-37.
En traducción al castellano Revista Afuera, 3 (noviembre 2007).



Texto:

Poderíamos partir de Espinosa, o príncipe dos filósofos. E começar pelo mais elementar. O que é um indivíduo? Espinosa responde: um indivíduo se define pelo seu grau de potência. Cada um de nós tem um grau de potência singular, o meu é um, o seu é outro, o dele é outro. Mas o que é um grau de potência? É um certo poder de afetar e de ser afetado. Cada um de nós tem um certo poder de afetar e de ser afetado. O poder de ser afetado de um burocrata, basta ler Kafka para ter uma idéia claríssima. E a capacidade de ser afetado e de afetar de um artista, qual é? Será que a de um dançarino é a mesma que a de um ator, ou de um político? Será que a de um acrobata é a mesma que a do jejuador? De novo Kafka, vejam-se aqueles pequenos contos sobre artistas, em O Artista da Fome, por exemplo. Mas Deleuze gosta de dar o exemplo do carrapato, que preenche o seu poder de ser afetado pelos três elementos, a luz, o cheiro, o sangue. Ele busca o lugar mais alto da árvore em busca da luz, depois pode ficar um tempo longuíssimo na espera jejuante em meio à floresta imensa e silenciosa, e quando sente o cheiro do mamífero passando, ploft, deixa-se cair, para depois se enfiar na pele do animal atrás do sangue. Então o que é um carrapato? Ora, é um grau de potência. É um certo poder de ser afetado. Um carrapato se define, em última instância, por esses três afectos. Como fazer a cartografia de nossos afectos? Como mapear “etologicamente” os afectos de um indivíduo, seja ele um carrapato ou uma pessoa? Ou de um grupo, ou de um movimento?

Então somos um grau de potência, definido por nosso poder de afetar e de ser afetado. Mas jamais sabemos de antemão qual é nossa potência, de que afectos somos capazes. É sempre uma questão de experimentação. Não sabemos ainda o que pode o corpo, diz Espinosa, só o descobriremos ao longo da existência. Ao sabor dos encontros. Só através dos encontros aprendemos a selecionar o que convém com o nosso corpo, o que não convém, o que com ele se compõe, o que tende a decompô-lo, o que aumenta sua força de existir, o que a diminui, o que aumenta sua potência de agir, o que a diminui. Um bom encontro é aquele pelo qual meu corpo se compõe com aquilo que lhe convém, um encontro pelo qual aumenta sua força de existir, sua potência de agir, sua alegria.Vamos aprendendo a selecionar nossos encontros, e a compor, é uma grande arte, essa da composição, da seleção dos bons encontros. Com que elementos, matérias, indivíduos, grupos, idéias, minha potência se compõe, para formar uma potência maior, e que resulta numa alegria maior? E ao contrário, o que tende a diminuir minha potência, meu poder de afetar e de ser afetado, o que provoca em mim tristeza? O que é aquilo que me separa de minha força? A tristeza é toda paixão que implica uma diminuição de nossa potência de agir; a alegria, toda paixão que aumenta nossa potência de agir. Isso abre para um problema ético e político importante: como é que aqueles que detêm o poder fazem questão de nos afetar de tristeza? As paixões tristes como necessárias ao exercício do poder. Inspirar paixões tristes – é a relação necessária que impõe o sacerdote, o déspota, inspirar tristeza em seus sujeitos, torná-los impotentes, privá-los da força de existir. A tristeza não é algo vago, é a diminuição da potência de agir. Existir é, portanto, variar em nossa potência de agir, entre esses dois pólos, essas subidas e descidas, elevações e quedas.

Então, como preencher o poder de afetar e ser afetado que nos corresponde? Por exemplo, podemos apenas ser afetados pelas coisas que nos rodeiam, nos encontros que temos ao sabor do acaso, podemos ficar à mercê deles, passivamente, e portanto ter apenas paixões. E pior, esses encontros podem apenas ser maus encontros, que nos dão paixões tristes, ódio, inveja, ressentimento, humilhação, com o que se vê diminuída nossa força de existir, com o que nos vemos separados de nossa potência de agir. Ora, poucos filósofos combateram tão ardentemente o culto das paixões tristes. O que Espinosa quer dizer é que as paixões não são um problema, elas existem e são inevitáveis, não são boas nem ruins, são necessárias no encontro dos corpos e nos encontros das idéias. O que, sim, numa certa medida, é evitável são as paixões tristes que nos escravizam na impotência. Em outros termos, as paixões alegres nos aproximamos daquele ponto de conversão em que podemos deixar de apenas padecer, para podermos agir; deixar de ter apenas paixões, para podermos ter ações, para podermos desdobrar nossa potência de agir, nosso poder de afetar, nosso poder de sermos a causa direta das nossas ações, e não de obedecermos sempre a causas externas, padecendo delas, estando sempre à mercê delas. Como vocês já perceberam, estou num vôo livre e supersônico em Espinosa, com pitadas de Deleuze, para nossos propósitos específicos.

Deleuze insiste no seguinte: ninguém sabe de antemão de que afectos é capaz, não sabemos ainda o que pode um corpo ou uma alma, é uma questão de experimentação, mas também de prudência. É essa a interpretação etológica de Deleuze: a ética seria um estudo das composições, da composição entre relações, da composição entre poderes, dos modos de existência em que resulta tal ou qual composição. Não se trata de seguir qualquer mandamento, cartilha prévia, ou receita, mas de avaliar as maneiras de vida que resultam desta ou daquela composição, deste ou daquele encontro, desta ou daquela afetação. Se o indivíduo se define pelo seu poder de afetar e ser afetado, de compor-se, a questão se amplia necessariamente para além do indivíduo, e concerne o leque de seus encontros. Como as relações podem compor-se para formar uma nova relação mais “estendida”, ou como os poderes de afetar e de ser afetado podem se compor de modo a constituir um poder mais intenso, uma potência mais “intensa”. Trata-se então, diz Deleuze, das “sociabilidades e comunidades. E ele chega a perguntar: como indivíduos se compõem para formar um indivíduo superior, ao infinito? Como um ser pode tomar um outro no seu mundo, mas conservando ou respeitando as relações e o mundo próprios?” É uma pergunta crucial, não só para quem trabalha em grupo, mas na vida em geral. Como um ser pode compor-se com outro, tomá-lo no seu mundo, mas conservando ou respeitando as relações e o mundo próprios desse outro? Como se pudessem coexistir vários mundos, mesmo no interior de uma composição maior, sem que sejam todos reduzidos a um mesmo e único mundo. A partir daí, pode-se pensar a constituição de um “corpo” múltiplo. Por exemplo, um coletivo seria isso, um corpo múltiplo, composto de vários indivíduos, com suas relações específicas de velocidade e de lentidão. Um coletivo poderia ser pensado como essa variação contínua entre seus elementos heterogêneos, como afetação recíproca entre potências singulares, numa certa composição de velocidade e lentidão.

Mas como pensar a consistência desse “conjunto” composto de singularidades, de multiplicidade, de elementos heterogêneos? Deleuze e Guattari invocam com freqüência um “plano de consistência”, um “plano de composição”, um “plano de imanência”. Num plano de composição, trata-se de acompanhar as conexões variáveis, as relações de velocidade e lentidão, a matéria anônima e impalpável dissolvendo formas e pessoas, estratos e sujeitos, liberando movimentos, extraindo partículas e afectos. É um plano de proliferação, de povoamento e de contágio. Num plano de composição o que está em jogo é a consistência com a qual ele reúne elementos heterogêneos, disparatados, e também como favorece acontecimentos múltiplos.

Como diz a conclusão praticamente ininteligível de Mil Platôs, o que se inscreve num plano de composição são os acontecimentos, as transformações incorporais, as essencias nômades, as variações intensivas, os devires, os espaços lisos – é sempre um corpo sem órgãos. Em todo caso, há aqui uma condição que serve para pensar o plano micropolítico ou macropolítico, e que parece uma fórmula matemática,: o n-1. O que significa essa fórmula esquisita? Apenas isto. Dada uma multiplicidade qualquer, um conjunto de indivíduos, ou singularidades, ou afectos, como produzir esse plano de consistência sem subsumir essa heterogeneirade a uma unidade qualquer? Ou seja, o desafio consiste nisso: mergulhados numa multiplicidade qualquer, que faz um plano de composição, esconjurar aquele Um que pretende unificar o conjunto ou falar em nome dessa multiplicidade, seja esse um o papa, um governante, o diretor, uma ideologia, um afecto predominante. Trata-se de recusar o império do Um. É uma filosofia da diferença, da multiplicidade, da singularidade, o que não significa o Caos, a indiferenciação, o vale tudo, mas justamente o contrário, a afetaçao, a composição, uma espécie de construtivismo, onde a regra única, além de toda essa química dos encontros, e da consistência, é excomungar aquele que pretende falar em nome de todos, ou que se crê representante de uma totalidade que justamente cabe a todo custo evitar.

Eu não queria terminar esse percurso tão ziguezagueante por uma conclusão excessivamente assertiva, pois estamos num momento tão complexo que a assertividade pode tornar-se ela mesma um ingrediente fundamentalista a mais que se conjuga com os tantos outros, como o da religião do capital ou o capital das religiões. A experimentação é sempre mais hesitante, feita de lacunas e disparidades, colapsos e retomadas, desfalecimentos, gagueiras, devires insólitos, acontecimentos tanto mais imponderáveis quanto menos se dão a ver segundo os limiares de percepção consagrados por uma sociedade do espetáculo. Talvez eu queira dizer apenas o seguinte, à guisa de encerramento. Deleuze chega a dizer que o que lhe importa não é o futuro de revolução, mas o devir-revolucionário das pessoas, os espaços-tempo que elas são capazes de inventar, os acontecimentos que se ensejam por toda parte. De modo que, como diz ele, ser de esquerda não significa uma pertinência partidária, mas uma questão de percepção. Quando pensam em maio de 68, Deleuze e Guattari se referiam a uma mutação na sensibilidade, na percepção social, em que subitamente tudo aquilo que era suportado cotidianamente se tornou intolerável, e inventaram-se novos desejos que antes pareciam impensáveis. Uma mutação social é uma redistribuição dos afetos, é um redesenho da fronteira entre aquilo que uma sociedade percebe como intolerável e aquilo que ela considera desejável. Não me parece que o teatro seja estranho a essa tarefa, que é da sensibilidade, da percepção, da invenção de possíveis, de formas de associação inusitadas, de modos de existência. É um desafio estético, ético, político, subjetivo. Mas que não se dá de forma etérea nem abstrata. Às vezes precisamos de dispositivos muito concretos que sustentem tais experimentações, tais acontecimentos. Estar à altura do que nos acontece, é a única ética possível, estar a altura dos acontecimentos que se esteja em condições de propiciar, nos mais diversos campos, nas mais diversas escalas, moleculares e molares, recusando o niilismo biopolítico e suas formas cada vez mais insidiosas e capilares. A esses dispositivos vários, dos quais um certo teatro faz parte, eu chamaria de dispositivos biopolíticos, onde está em jogo uma potência de vida, uma biopotência.






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